Como Vencer as Dificuldades que Enfrentam os Captadores de Recursos na América Latina


Daniel Yoffe e Brad Henderson mostram os resultados do 2º Congresso do Hemisfério, organizado pela AFP e Resource Alliance na Cidade do México.*




Introdução

O papel do captador de recursos na América latina está em plena construção. Teve início um forte crescimento na América Latina das Organizações da Sociedade Civil e com ele a necessidade de se conseguir os recursos necessários para realizar sua missão. A atual geração de profissionais estão criando as bases de uma profissão transcendente para a realidade de nossos paises.

Enfrentar este desafio implica formular perguntas como: Quais são as principais dificuldades ou desafios que enfrentam os captadores de recursos na América Latina? Quais são as oportunidades que tem esses profissionais? Que estratégias se propõem para enfrentar estas dificuldades?

Algumas destas interrogações foram respondidas durante o 2º Congresso do Hemisfério, organizado pela Associação de Captadores de Recursos Profissionais - AFP (Association of Fundraising Professionals) e a Resource Alliance, na Cidade do México entre 26 e 28 de janeiro deste ano. Baseado no tema “Como vencer as dificuldades que enfrentam os captadores de recursos na América Latina”, foi realizado um workshop onde estiveram presentes mais de 90 profissionais de toda a América latina.

A fim de facilitar o processo de análise e resposta a estas interrogações, se configurou uma equipe de profissionais experientes composta por: Isabella Navarro Grueter, diretora de desenvolvimento institucional da Universidade de Monterrey, México; Marcela Garrida, diretora de pesquisa da BMC Inovation Company, Argentina; Gonzalo Guzmán Del Rio, Dept de Captação de Recursos, UNICEF – Santiago, Chile; Alfonso Topete Señkowski, diretor geral, Corporativa de Fundações, A.C. México. Minha contribuição (Yoffe) dentro desse cenário diverso, foi coordenar o workshop.

Após um intenso debate em 5 diferentes grupos de trabalho, os coordenadores apresentaram seus relatórios. O que segue, são as conclusões mais importantes desse debate.

Resulta necessário especificar o esquema conceitual utilizado para organizar a informação e dar coerência ao grande volume de comentários e sugestões:



  1. Entorno social. Todos aqueles obstáculos e dificuldades vinculados ao entorno em que se desenvolvem as organizações e em que as instituições devem estar mais atentas;

  2. Entorno organizacional. Os desafios próprios de uma organização, um olhar examinador para seu interior;

  3. Entorno pessoal. Os desafios e oportunidades que enfrentam os captadores de recursos como profissionais.


Primeiras Conclusões

1. O entorno social

Marco regulatório
Existe uma ampla e lamentável coincidência de que o Marco Regulatório para as atividades próprias do captador de recursos e das organizações sociais, em geral, é pobre. O marco legal é burocrático e representa um obstáculo para que as organizações possam funcionar adequadamente. Isso inclui incentivos para doações e patrocínios e seus diferentes mecanismos de implementação. É claro que seria fundamental realizar estudos comparativos sobre bons marcos regulatórios existentes (benchmarking) em alguns países da região sobre temas tais como: a redução dos encargos fiscais para ONGs, tempos para conceder permissões, benefícios fiscais para os patrocinadores, etc. O anterior é fundamental para poder contar com uma legislação e compartilhar na região as melhores práticas legislativas. Para tal efeito se recomenda desenvolver processos de “associações administrativas”, por parte das associações profissionais locais, buscando um desenvolvimento homogêneo a nível regional.

Cultura da responsabilidade
Por outra parte, a crença de que os problemas da sociedade são de responsabilidade do governo e da igreja prevalece há muito tempo na percepção da sociedade. A isto devemos agregar os feitos de que os governos tendem, muitas vezes mais, a busca do controle das organizações da sociedade civil que a promoção da responsabilidade e da participação cidadã. Às vezes os governos tem um impacto negativo na ética e na procura de bens profissionais. Esperam ser protagonistas dos trabalhos do setor, através do “patrocínio” de projetos ou das organizações.

A criação e a promoção de uma cultura de responsabilidade está em sua primeira fase na região e nem todos os países da América Latina marcham num mesmo ritmo. A atividade filantrópica é vista como uma ação pouco profissional e não se percebe na sociedade a existência de especialistas no assunto.

Corrupção e transparência
A falta de transparência nas contas em níveis governamentais se reflete no campo das organizações sociais, mas por motivos diferentes. A causa disto nas organizações sociais esta mais centrada na falta de formação e no desenvolvimento de uma cultura de administração (stewarship) no interior das organizações. Uma das principais conseqüências é a falta de confiança que devem enfrentar tanto os captadores de recursos como as organizações em geral.

Não estão estabelecidos modelos e padrões de transparência para que as organizações sociais gerem confiança para os potenciais patrocinadores.

Responsabilidade social empresarial
Os empresários porém não desenvolveram uma cultura de responsabilidade social empresarial que reflita com claridade em sua participação dentro de organizações sociais. Em geral, são somente grandes marcas que se relacionam com grandes instituições.


2. O desafio das organizações (o entorno organizacional)


A cultura organizacional
Muitos dos sintomas de que padecem os captadores de recursos estão vinculados a falta de uma cultura organizacional onde o comportamento e a responsabilidade se integrem a visão da própria organização.

Veremos a continuação com uma enumeração destes sintomas:

Falta liderança e compromisso nos conselhos das organizações. Os conselheiros não dão e tão pouco pedem patrocínio. Como parte deste mesmo problema, as organizações concebem a captação de recursos como sendo a atividade de uma só pessoa. Não a vêem como uma função que compete a todos os seus membros.

Baixo nível profissional e má gestão das ONGs e por conseqüência da gestão de captação. Faz-se apenas um planejamento a curto prazo e não se desenvolve uma cultura de investimento na atividade de captação de fundos.

Falta de medida da efetividade das organizações. Benchmarks para atividades de captação de recursos, por exemplo, de divulgação, difundindo informação. Um rol de coordenações por parte da AFP, seria lógico e esperado, podendo ter um impacto importante.

Algumas das causas desses “sintomas” estão no pouco investimento (tempo, dinheiro e capacitações) no desenvolvimento dos profissionais e voluntários.

Resulta muito importante criar uma visão compartilhada dentro das organizações enquanto ao trabalho dos conselheiros e profissionais na arrecadação de fundos. Além de desenvolver programas de capacitação no interior das organizações que fortaleçam essa visão.

A ética
O tema da ética foi outro dos grandes acordos de todos os grupos. As ações não éticas de alguns, afetam a todo o setor. Ser proativo com campanhas de conscientização sobre a ética no setor poderia ser efetivo para reduzir essa ameaça. É expressada a importância de passar de uma reflexão para uma ação mais direta: “ converter-nos em cães de guarda da ética e da transparência”. Se propõem que a AFP crie um fórum de discussão permanente sobre esse tema.

Networking, associativismo e fluxo de informação
É necessário “começar a trabalhar e funcionar mais como setor”. Desenvolver um networking de captadores de recursos (sharing skills). Baseado na maravilhosa experiência que tem na América Latina em desenvolvimento de redes (rede para criança, terceira idade, etc.), ampliar a capacidade das organizações para estabelecer mecanismos de associação que favoreçam o trabalho do captador. Trabalhar em objetivos comuns, com estratégias comuns a todos.

As organizações deveriam adotar uma cultura organizacional mais colaborativa, por exemplo quando há organizações com necessidades similares, se poderia compartilhar oficinas ou recursos humanos para que haja um intercâmbio de experiências e uma redução de gastos administrativos.


3. O desafio do captador de recurso como profissional


Identidade profissional
A pergunta sobre o quê é um captador de recursos: um técnico, um simples empregado ou um profissional? Também esta vigente na região. Os baixos salários, geram profissionais de baixos níveis que trocam de trabalho com freqüência. Deveriam existir incentivos não econômicos( como capacitação ) e bônus por resultados que estimulem a aproximação e retenção daqueles com maiores capacidades.

Frente ao problema da pouca profissionalização do ofício, gente com pouca experiência e educação em captação, se ocupa de realizar a tarefa, criando confusão ou distorção no ofício. Uma solução seria a criação de diplomados, não custosos, mas que conduzam a uma certificação e que definam um parâmetro de qualidade para a profissão. A AFP deveria dar a repostas para esse problema.

Há 20 anos, era impossível de se pensar em um congresso de captação de recursos com a participação de especialistas da América Latina. O desenvolvimento ocorrido na América Latina nos últimos anos permite que isso aconteça, por isso a importância de se valorizar os espaços e assisti-los como parte essencial do crescimento do campo profissional.

Formação e desenvolvimento

Todavia, resulta muito importante conseguir sistematizar e recuperar as experiências , documentá-las e desenvolver metodologias. Somente desta maneira poderemos acumular e transmitir nossos conhecimentos e aproveitar os de outros. Todos juntos podemos ajudar--nos a ajudar a nossa “nova” profissão.

Por outro lado existe um grande campo para os captadores pois é um setor em constante crescimento e suas necessidades são cada vez maiores; em qualidade e em quantidade.

Mais um dos obstáculos é a falta de provedores de serviços qualificados para os fins da profissão. A fim de encontrar uma solução, se propõem organizar –se através de uma associação profissional, para se convocar profissionais internacionais e locais, mediante projetos de grupo em que justifiquem uma iniciativa comercial. O mercado filantrópico latino é pouco explorado pelos provedores de serviços de captação de recursos. Materiais e softwares contextualizados e disponíveis em idiomas de cada região, em espanhol e português.

Em síntese

É interessante ressaltar as grandes coincidências que se estabeleceram em um grupo de profissionais dos mais diversos campos de procedência (saúde, educação, luta contra a pobreza) e de países como: Guatemala, Argentina, Uruguai, Brasil, Costa Rica, Colômbia, Chile, Bolívia, Equador, México, Venezuela, etc.

Os pilares conceituais foram:



  1. Marco regulatório/ Legislação;

  2. Profissionalização;

  3. Networking, capacidade associativa e fluxo de informação

  4. Troca cultural: o interior e o exterior da instituições


Esperamos nos próximos anos poder começar a vislumbrar as transformações que temos conseguido em benefício da grande sociedade da América Latina.

Os desafios são grandes para que os captadores de recursos possam assumir seu papel nas organizações da sociedade civil.

Este wokshop identificou quatro pilares conceituais que devem ser levados em conta e incorporados nos próximos anos.





Mais informações:
http://www.resource-alliance.org/index.php



* Daniel Yoffe é director da Yoffe Castañeda Consultores, no México, forma parte da Advisory Board do jornal “New Directions for Philanthropic Fundraising” do Centro de Filantropia da Universidade de Indiana – EUA; Conta com diversos trabalhos publicados para congressos e conferências internacionais. Atualmente atua como em instituições no México, Brasil e Argentina.

* Brad Henderson é Gerente para América Latina da AFP, Assessor para o Desenvolvimento de Recursos da Habitat para a Humanidade para toda a América do Sul e fellow da Universidade americada Johns Hopkins University. Em seu trabalho está diretamente envolvido com as iniciativas desenvolvidas em 9 países

1 comentario:

Prospecção Novos Negócios dijo...

Prezados Senhores,

Parabenizo-os pelo brilhante e valoroso trabalho, com a inserção de ótimos referenciais teóricos bem como contextuais, a fim de oportunizar e valorizar a carreira dos Prospectadores de Novos Negócios e disseminadores da Captação de Recursos extraordinários.

Cordialmente,

Rogério Magno.